Arelho






Situada na margem direita da Lagoa de Óbidos, a aldeia do Arelho remonta,pelo menos, ao século XII.

Ocupando então a Lagoa uma extensão muito mais vasta que a de hoje não é de estranhar que na aldeia, a par da actividade agrícola, houvesse uma intensa actividade piscatória.

Efectivamente, é possível detectar, na documentação existente, a referência a vários pescadores da localidade. Tal é o caso, referido pela historiadora Manuela Santos Silva, de um contrato de aforamento que o Mosteiro de Chelas faz a um habitante do Arelho, em 1440, de todas as propriedades de pão e vinho que possuía no lugar do Vau. A mesma autora coloca ainda a hipótese de ser o Arelho a Póvoa da Lagoa para onde os pescadores de Salir se deslocavam durante o Inverno.

Consultando os Livros de Registo de Décimas existentes no Arquivo Histórico da autarquia, relativamente aos séculos XVI e XVIII, continuamos a verificar a existência de uma percentagem significativa de pescadores, embora com algum decréscimo à medida que o tempo avança e a Lagoa vai recuando. É assim que, em 1648, numa aldeia com pelos menos quarenta e três agregados familiares, vinte e oito dos quais com profissão referenciada, são apontados dezanove pescadores. Em 1775, tendo a aldeia atingido as oitenta e cinco famílias, das quais quarenta e sete com profissão definida, são identificados vinte e dois pescadores. Já em 1832, podemos verificar que dez dos sessenta e um habitantes que pagam Sisa são pescadores.

A presença desta actividade está também referenciada nos Inventários de Partilhas feitos no Juízo de Orfãos da vila de Óbidos, através quer da referência da profissão do falecido ( como é o caso de Manuel Rodrigues, de alcunha o Balra, falecido em Abril de 1711), quer através dos bens móveis dados a partilhas onde é possível encontrar barcos, remos, caldeiras e redes ( de tresmalho e outras). A construção e reparação de barcos e de outros equipamentos de pesca pode explicar, em parte que, em 1775, residam na localidade três carpinteiros.

A importância da actividade piscatória é ainda reforçada pelo facto da Ermida da localidade, afecta à paróquia de São João do Mocharro, a que a aldeia pertenceu até à reforma administrativa do século XIX, ser dedicada a um pescador , o Apóstolo Santo André e de, aquando da festa a ele dedicada, o andor do santo ter a forma de um barco.

A par da pesca a população dedicava-se também à agricultura, explorando terrenos próprios ou aforados no Arelho, no Vau e nas localidades vizinhas ( Santa Rufina, Galiota, Carregal, Bairro., Avarela), sem contar os estins ( propriedades) da Várzea da Rainha.. Os lavradores ( são referidos três em 1648 e sete em 1775, nos livros de registo de décimas) produzem sobretudo azeite, vinho e cereais ( trigo, cevada e, sobretudo a partir do século XVII, milho) embora apareçam já referidos vários pomares (onde, segundo informação do prior de São João do Mocharro, em 1758, se produziria pouca fruta de toda a casta e maçãs em abundância) e algumas ( muito poucas) hortas.

A apoiar a actividade agrícola , pelo menos a partir do século XVIII, dois moinhos de vento ( a referência ao topónimo "Moinho Novo" remete para o facto de um deles ser anterior a esta época) e , em 1711, de uma casa térrea com sua lagariça ( lagar).

A localidade dispõe ainda, em 1832, de um "forneiro", que, atendendo à escassez de fornos privados que encontramos na documentação, deveria abastecer de pão os habitantes.

Ao longo dos séculos, a aldeia foi crescendo num outeiro sobranceiro à lagoa e aos rios, deixando a zona mais baixa, o "Vale do Arelho", para a agricultura. As casas, maioritariamente térreas no início, com uma ou duas divisões, cresceram em torno do "Rocio", já referido no século XVI e que ainda hoje existe, e da Igreja, localizada na parte mais alta da localidade, ao longo de ruas estreitas, íngremes e de traçado muito irregular.

Sobranceira a toda a aldeia, a Capela de Santo André, templo rural de uma só nave e com uma galilé exterior alpendrada, na fachada principal. Na mesma fachada, encimando o alpendre, está inscrita uma imagem de pedra representando o orago que Gustavo de Matos Sequeira, em 1955, datou do século XVI a atribuiu a um escultor de nome Nuno Alvares. No interior da capela, destacamos a imagem do orago datada, segundo informação do historiador Sérgio Gorjão, do século XV ( o que deixa antever a antiguidade da capela), da autoria de um escultor da escola de Coimbra que assinava as suas obras com as iniciais P.A. O mesmo escultor terá sido o autor da escultura de São João Baptista do Mocharro, datada da mesma época e hoje exposta no Museu Municipal.

Podemos ainda admirar várias imagens do período Barroco ou de influência barroca: Nossa Senhora dos Milagres, Nossa Senhora das Neves, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Conceição ( as duas últimas no altar-mor da capela, cujo retábulo datará dos finais do século XVIII).

Na capela existiram, pelo menos no século XVIII, duas confrarias: de Santo André ( para a qual o Visitador da paróquia de São João manda comprar um livro que sirva para o registo da respectiva receita e despesa, no ano de 1733) e a de Nossa Senhora das Neves. Ambas as confrarias possuem bens de raiz, legados em testamento, na zona ( Arelho, Carregal, Bairro).

Relativamente à imagem de Nossa Senhora das Neves e respectiva Confraria, é possível que estejamos em presença de uma imagem e instituição trazida da Igreja de São João Baptista do Mocharro, aquando da mudança da paróquia para a antiga capela de São Vicente, na Porta da Vila, no decorrer do século XVII. Efectivamente as Memórias Históricas , aquando da descrição da igreja, referem que aí existia uma imagem da referida Santa ( com direito a festa do dia cinco de Agosto) e uma Confraria composta maioritariamente por pessoas do Arelho.

Actualmente, a aldeia realiza duas festas religiosas. A de Santo André tem lugar a trinta de Novembro e, tradicionalmente, era organizada por homens casados. Na primeira segunda-feira de Agosto decorre a festa em honra de Nossa Senhora dos Milagres que, em tempos idos era organizada pelos solteiros da aldeia.

Próxima da localidade, mas já no vale, ficaria, até ao século XVIII, a Ermida de Santa Justa e Santa Rufina, em terrenos confinantes com a Lagoa. O autor oitocentista das Memórias Históricas refere que a ermida remontava ao tempo dos godos e ficava numa situada numa gruta, em parte natural e em parte artificial.

Tendo a referida ermida, sido demolida, em 1847, as duas imagens foram então depositadas na Capela de Nossa Senhora da Conceição do lugar de Trás do Outeiro, uma vez que tanto a capela como a ermida pertenciam então à paróquia de Santiago.

Galeria de imagens

Partilhar: